NOSSO BLOG

Legal Design: Inovação e acesso ao mundo Jurídico

A área jurídica, assim como tantas outras áreas, passa por transformações. As novas faces para o Direito, incrementadas pelo modelo mental do Design Thinking, faz surgir o Visual Law, que tem como ferramenta a experiência prática para entender informações jurídicas, uma revolução no mundo do Direito por meio da empatia, colaboração e experimentação, para fazer diferente, se posicionar num mercado em evolução constante.

O Legal Design é um conceito novo, uma forma de avaliar e criar serviços jurídicos através de equipes multidisciplinares, está efervescendo no mundo todo e muito longe de um esgotamento sistêmico. Sua popularização é atribuída à professora Margaret Hagan, diretora do Legal Design Lab, nos Estados Unidos.

Tendo como premissa “processo, mentalidade e mecânica”, esses três recursos podem ajudar a conceber, construir e testar melhores maneiras de fazer as coisas na lei, e que irão envolver e capacitar leigos e os profissionais do direito.

– “Mas mudar o que já vem sendo feito há décadas?”

– “Tem a ver com a formação dos sócios e líderes, com a cultura do escritório.”

– “Com o propósito do escritório, que veio ao mundo dos negócios.”

– “O advogado não é formado para ser designer, isto é coisa de artista. Isso não se aplica ao mundo do Direito!”

– “Tem a ver se o cliente não vai achar tudo muito infantilizado, afinal ele está esperando um calhamaço de papel escrito.”

– “E se o juiz não entender nada?”

Resistir ao diferente é natural. Mas de qual lado do futuro você vai estar?

Tudo é processo evolutivo. Para uns, barreiras naturais levarão uma vida inteira para serem quebradas; para outros profissionais, ávidos por inovação e posicionamento no mercado de forma diferenciada, é uma necessidade premente este novo modo de pensar e agir.

Mas e se o instrumento jurídico precisar de um parecer urgente, e este documento possuir páginas e páginas escritas? Imagine o impacto psicológico de um parecerista ao se deparar com um documento denso, que por muitas vezes não consegue explanar de forma clara o fato. Agora, imagine o documento ilustrado por elementos gráficos que demonstram melhor suas colocações, com uma lógica mais encadeada e direcionada especificamente para o perfil do interlocutor… Esta é a essência do Legal Design.

Os três pilares que sustentam o Legal Design, em que se aplicam Design e métodos ágeis aos documentos e fluxos internos para conseguir atender os clientes com a agilidade que eles precisam e com uma comunicação que todos entendam, são :

Empatia: “Ver o mundo com os olhos dos outros”, conectar usuários com soluções que dialogam com seu universo, “colocar-se no lugar do outro”. Ouvir, entender os sentimentos dos outros, compreender para descobrir a solução mais próxima à qual eles anseiam.

Colaboração: Trabalho em equipe multidisciplinar. Outros olhares para o mesmo problema promoverão conexões, troca de experiências entre pessoas com habilidades e percepções diversas, e são fundamentais para chegar a soluções criativas e inovadoras.

Experimentação: Colocar em prática ideias que possam revolucionar, trazer algo diferente, novas compreensões e novos entendimentos, sair do campo do sonho ou do medo para propor algo que não seja o óbvio, o esperado.

O Design Thinking é uma poderosa prática para compreender o todo de um projeto. Do problema à sua solução, encontramos as fases: imersão, diagnóstico e o por em prática para ser testado. Não uso a palavra metodologia para Design Thinking – um conceito abstrato que pressupõe que seja algo como passo a passo -, uso “modelo mental” por entender ser mais apropriado na construção de um raciocínio multidisciplinar e inovador.

Como definir Legal Design?

Podemos defini-lo como uma necessidade de criação de produtos jurídicos mais claros e que realmente atendam às necessidades de seus usuários. Há um vazio entre Direito e as interfaces digitais, um vácuo muito grande na redação extremamente romantizada, palavras remontam séculos na formatação dos textos jurídicos e o entendimento global do que realmente se pretende dizer. Isto começa na formação universitária, o que pode gerar um texto prolixo e sem objetividade. Em detrimento a isto, somos uma sociedade visual, estimulada a todo instante por imagens.

Com elementos de User Experience – UX (em portugês, experiência do usuário) – e aqui não estou tratando de tecnologias e sim do processo de apoiar o comportamento do usuário por meio da usabilidade, sua utilidade e conveniência fornecida na interação com um produto ou serviço -, a experiência de entregar soluções profundas passa pela experiência que o cliente vai ter durante todo processo. Levando o termo para o mundo dos negócios, a experiência centrada no usuário abrange toda a experiência que o usuário tem como a empresa do início ao fim; se a experiência for fraca, não irá criar vínculo, relações de longo prazo com o cliente. A partir disto é possível entender e mensurar a preocupação com o usuário dentro do universo do Design. É a experiência mapeando informações para projetos futuros e resolução de problemas.

Sendo assim, definimos Design como projeto, concepção de um produto, um serviço. Pensamos não somente como design e desenho, arte e estética, mas como a viabilidade de produção e funcionalidade. No campo da comunicação Design, é ferramenta de informação, e eu o classifico como ferramenta de transformação, de conversão de estado inerte para o entendimento, compreensão de algo.

Com a fusão do termo Legal (jurídico, em português) a área do Legal Design abarca não a estética da beleza, mas dar funcionalidade de para um produto de informação com mais objetividade e de forma clara, seja ele nas mais diversas plataformas de vídeo, gamificação, infográficos, entre outras soluções visuais. Muito longe de pensar que o Legal Design é dar uma “cara mais organizada e bonita para a peça jurídica”. Aqui reforço que o desejo é focar na questão informacional do instrumento que será apresentada de forma mais clara e interativa ao usuário. O design da organização preza pela forma de trabalho para obtenção de melhores resultados e o Legal Design faz parte da cultura da Inovação.

O Legal Design utiliza de ferramentas do Design Editorial, cuja  premissa está em garantir informações que o usuário precisa saber e entender para compreender o fato, fazendo com que possa confiar na informação inserida na peça. Mais do que organizar e guardar informações é importante a compreensão do todo. Neste processo, o storytelling é o fio condutor de como se dará o enredo desta narrativa de história, transmitindo o evento em forma de palavras, imagens e sons. Sendo assim, advogados podem combinar elementos visuais e textuais para contar a história detalhada do caso e aumentar as chances de persuadir os magistrados. Além disso, podem transformar contratos cansativos em documentos claros, interativos e prazerosos de ler.

O código de Hamurabi é um resgate do que é Legal Design em sua estrutura, narrativa e linguagem visual. Recordando, Hamurabi (1792/1750 a.C) foi um guerreiro, estadista e legislador elevou Babilônia à principal potência da Mesopotâmia. Seu Código de Leis criado em 1772 a.C – escrito em sistema cuneiforme, isso é, em forma de cunha, uma escrita inventada pelos sumérios -, contém 282 decretos e uma imagem altamente sugestiva de um governo justo. O material em que estão registradas as leis desse código é de basalto azul. A peça tem 2,25 m de altura, 1.50 m de circunferência na parte superior e 1,90 m.

O Legal Design é uma derivação do Design da Informação e tem indícios de acontecimento na Universidade de Stanford, com o Legal Design Lab; na Holanda, o grande expoente é o escritório chamado de  Aclara. Na África do Sul, o escritório Comic Contracts, do advogado Robert de Rooy, o é responsável por criar contratos no formato de quadrinhos para conseguir gerar inclusão social. Robert está desenvolvendo, pesquisando e defendendo contratos de quadrinhos como uma forma de pessoas analfabetas entenderem contratos e documentos jurídicos de forma independente, além de orientar comportamentos e melhorar o relacionamento entre as partes contratantes. O Legal Design ganha espaço pelo mundo.

O modo de pensar do Design Thinking é outro recurso para construção do raciocínio do entendimento de abordagens ao ramo jurídico, abordagens essas que se baseiam em conceitos de design e no componente humano das questões, visando à resolução de problemas do cliente jurídico de forma que o entendimento seja inovador e criativo.

No dia a dia de um advogado faz sentido o Design Thinking: o embate do problema versus a solução. Se o Direito é centrado nas pessoas, o Design também.

Na tríade “desejo-viabilidade-praticidade”, nem tudo que é desejável é viável e nem tudo que é viável é prático, e o Design Thinking vai entender o fluxo de possíveis soluções.

O Visual Law é uma ferramenta, um segmento que trata do sentido mais aguçado do ser humano: a visão. Por isso o uso de elementos visuais gráficos para dar mais clareza aos conteúdos.

Particularizando o Visual Law, que é uma subárea do Legal Design, ele facilita o entendimento das informações jurídicas para que qualquer pessoa possa compreender o seu conteúdo, tornando assim mais clara uma peça processual, um contrato ou uma explanação em busca de novos entendimentos.

O Visual Law se aplica em diversas possibilidades em que o foco seja tornar a informação mais clara e acessível:

– Propostas de serviços jurídicos;

– Termos e condições mais simples visualmente;

– Uma petição com estrutura reorganizada com ênfases visuais e elementos gráficos;

– Uma pesquisa de mercado demonstrando de forma segmentada a conexão dos pontos levantados com a atuação jurídica.

Ferramentas e recursos como infográficos, fluxogramas e pictogramas são usados, nessa área, para ilustrar estatísticas, narrar acontecimentos em ordem cronológica, criando linha do tempo, e apresentar comparativos. Ilustrações e bullet points dão mais vivacidade, e vídeos explicam casos complexos e destacam argumentos através de QR Codes, para complementar as petições. A escolha da paleta cromática é usada para dar mais entendimento, proximidade… tudo isto através da ciência do círculo cromático, num processo conduzido por um storytelling, que humaniza a narrativa, gera empatia, cria argumentações cativantes, criando, assim, fluência no texto.

No Brasil, esta técnica está presente em petições, contratos e termos de usos. Se não houver uma nova forma de pensar, o sistema jurídico levará décadas para entender e julgar os mais de 78,7 milhões de processos que tramitavam no Poder Judiciário, de acordo com dados de 2018 do site do Conselho Nacional de Justiça, tendo cerca de 21 mil juízes no País para apreciar tudo com a devida atenção, levando ao insucesso da causa.

Somos uma sociedade visual, temos muito mais capacidade de lembrar de imagens em apresentações visuais. Outro fator a ser considerado é a aceleração da vida moderna e a relação das pessoas com o tempo.

Mas se o uso de técnicas estudadas cientificamente pode contribuir para facilitar o fluxo nos tribunais, no melhor entendimento e na leitura e compreensão universal, por que advogados e juristas não adotam esta prática?

As ferramentas e os elementos visuais do Design são poderosos instrumentos de comunicação, mas grande parte dos advogados não os aplica em petições, optando pela argumentação textual, o que torna cada vez mais exaustivo o trabalho de juízes, que têm que se debruçar por longas horas e dias para ler e compreender a peça processual, um trabalho cansativo em que nem sempre o entendimento é satisfatório para ambas as partes.

Daí, conclui-se que profissionais da advocacia não adotam recursos visuais nas peças processuais por:

 – Desconhecimento da técnica e recursos visuais disponíveis;

 – Não possuir conhecimento de Design;

 – Não saber editoração de informações textuais, imagens e a relação com recursos visuais;

 – Não acreditar na persuasão de uma peça visual;

– Comodismo de não reaprenderem e acreditarem que a elaboração desses recursos represente um trabalho desgastante e ineficaz, o que os fazem optar pela produção textual.

Mas entendo que o Legal Design como um instrumento para aprimorar o nível de argumentação de advogados precisa ser aprendido por muitos profissionais. Estamos num novo encontro com a inovação e, como qualquer novidade, provavelmente será rechaçado por alguns magistrados, que resistirão aos elementos visuais. Mas é inegável que o excesso de processos, somado à escassez de tempo dos juízes para apreciar tudo, exige dos advogados novas perspectivas de atuação.

Bem-vindos ao mundo da multidisciplinaridade, que deve começar na formação universitária, passar pelos escritórios tradicionais, para chegar aos tribunais, e aí definir: de qual lado do futuro você vai estar?

Marcelo Silvani

Designer_Professor e entusiasta do Legal Design.

REFLEXÕES SOBRE PREVER O FUTURO DOS NEGÓCIOS

Costumo dizer que se eu tivesse uma bola de cristal para prever o futuro, talvez não estivesse onde estou!

O futuro está ligado às nossas crenças, à nossa fé e principalmente ao que estamos fazendo hoje. Sim, é possível prever o futuro e, inclusive, criá-lo. Vamos a algumas reflexões…

Carrego três pilares na vida empreendedora (e pessoal também), são eles: mente aberta, criatividade e rede de conexões.

A mente aberta nos possibilita ouvir o outro e absorver o que de melhor ele pode nos dizer. O sentido de ouvir também está em observar e avaliar as práticas de outras empresas ou pessoas. Henry Ford, por exemplo, não tinha outra fábrica de automóveis para observar quando criou a sua. Porém, se inspirou em um frigorífico de aves para se apossar de uma linha de produção e implantou no seu negócio. Assim são as mentes abertas que observam e avaliam outras práticas de outros segmentos e se apropriam delas.

A criatividade deve estar presente sempre em nossas atividades. Poxa, mas eu não sou uma pessoa criativa! Calma, tudo é possível desenvolver. E, à medida que se permite esse desenvolvimento, a fluidez do conhecimento aparece de forma automática. Imagine a sua empresa sendo um varejo de calçados, e o cliente gosta muito de um tênis que sua empresa comercializa, mas a cor dos cordões não agrada. Com criatividade é proposto ao cliente que substitua aquele cordão por outro de outra cor. A criatividade também está muito conectada com flexibilidade, com capacidade de adaptação. Neste caso, ser flexível às mudanças, adaptar-se às novas realidades, nos torna pessoas e profissionais mais bem preparados para “toda obra”.

Em relação às redes de conexões, manter uma rede de contatos e pessoas que te impulsionam para crescer é fundamental. Lembrando que ninguém empreende sozinho, apesar de muitos empreendedores realizarem praticamente todas as tarefas da empresa se maneira solitária. Ter pessoas à sua volta para orientar, direcionar e permitir que as ideias sejam compartilhadas traz uma bagagem rica e importante de conhecimento e desenvolvimento. Conectar-se com pessoas nos torna mais fortes! Os contatos também podem entregar a você formas de pensar diferentes e novas ideias para seu negócio e sua vida. Claro, sabendo aproveitar o que de melhor podem oferecer e o quanto está disposto a absorver em conhecimento.

Lembrando da grande premissa de que pessoas fazem negócios com pessoas, já pararam para refletir sobre trabalhar com os recursos que temos, o repertório que temos e a habilidade que possuímos?

Nestes casos, os recursos que temos podem ser recursos estruturais, humanos e intelectuais. Pense no que já tem de conhecimentos, quais as suas formações e seus aprendizados acumulados. Nesta reflexão, conseguirá pensar em tudo que já formou até o momento e também descobrir lacunas que ainda não estão preenchidas. Busque preenchê-las, para que aprimore ainda mais seus conhecimentos e práticas empresariais e pessoais.

Nosso repertório é o que carregamos de experiências de vida. Muitas vezes, nossas experiências acumuladas não estão escritas em livros ou em tutoriais no Youtube, e sim o que aprendemos e temos vivência com o que deu certo e o que não deu tão certo assim. Afinal, foi todo esse repertório que nos

trouxe até aqui e nos faz sermos quem somos. Que tal compartilhar com outras pessoas? Como utilizar técnicas para repassar nosso repertório a outras empresas? De uma forma sutil, também devemos praticar a solidariedade. Lembrando que um dia aprendemos algo com alguém, retribuir com o compartilhamento de conhecimento é, portanto, algo a se praticar!

E toda nossa habilidade em executar diversas tarefas ou desenvolver alguma ideia? Neste caso, de nada adianta termos habilidade e não praticar. É sempre um convite a se colocar no controle das situações, com perspicácia e humildade. Em muitas tarefas temos mais ou menos habilidade na execução. E ao se tratar de liderança de equipes, perceber o que as pessoas têm de melhor para oferecer é tarefa fundamental do líder perspicaz! Sendo assim, demonstre suas maiores habilidades e reconheça suas fraquezas. Dessa forma, você terá oportunidade de aprender e se aprimorar!

Retornemos para a previsão do futuro! Pois é… conseguiremos prever e até criar nosso futuro conforme nossas atitudes e direcionamentos praticados hoje. É claro que algumas circunstâncias da vida podem desviar nosso caminho de construção, e aí fica a grande reflexão para a importância de ter a mente aberta, ser criativo e flexível e manter sempre sua rede de contatos fortalecida!

Conecte-se comigo, terei grande prazer em conversar e trocar ideias para a busca dos melhores resultados para você e sua empresa! Forte abraço e até a próxima reflexão!

Lívia Marengo

Sou Lívia Marengo, consultora, mentora, palestrante e facilitadora. Empreendedora do varejo físico e online e amante das metodologias ágeis. Também sou entusiasta da Gestão da Inovação e Marketing. Farmacêutica, mestra e doutoranda em Ciências Farmacêuticas pela Uniso. Calígrafa e aspirante a designer! “Desenvolver a força do seu negócio, buscando os melhores resultados, é o que me move!”

Como começar com segurança jurídica

Nos últimos anos, o número de startups cresceu exponencialmente no Brasil, passando de aproximadamente 4.150 em 2015 para 13.433 em 2021, com a atuação majoritária nos segmentos de educação (8,44%), finanças (5,8%), saúde (5,3%), internet (5,06%), ecommerce (4,33%), comunicação e mídia (3,59%) e agro (3,55%), segundo dados apurados pela Associação Brasileira de Startups (Abstartups).

Embora o mercado seja promissor, inclusive em escala global, já que o Brasil é o 20º de 100 países do ranking mundial da StartupBlink2
, iniciar qualquer modelo escalável é desafiador, independente do setor ou da originalidade do serviço ou produto a ser ofertado, já que existem inúmeras barreiras regulatórias, societárias e de propriedade intelectual que precisam ser enfrentadas desde o início da operação por partes dos
empreendedores, que muitas vezes possuem recursos e know-how jurídico limitados.

Por essa razão, ainda quando a startup é embrionária, é comum surgirem incertezas sobre a necessidade – ou até obrigatoriedade – de serem formalizados contratos, termos, registros ou sociedades empresariais, já que o negócio pode não prosperar, não interessar a investidores ou sequer sair do papel.

De antemão, deve ser alertado que o grande óbice da ausência de formalização de startups é que algumas tomadas de decisões iniciais, como incorporar ou retirar sócios, receber aportes, adquirir, transferir ou licenciar tecnologias, entre outras, podem acarretar elevados riscos legais, inclusive resultando em disputas judiciais futuras.

Assim, antes mesmo de iniciar o projeto, alguns mecanismos contratuais podem ser adotados pelos empreendedores para que o investimento – de tempo inclusive – seja realizado de modo seguro. O primeiro instrumento que pode ser celebrado por quem deseja empreender em conjunto é o Memorando de Entendimento ou Memorandum of Understanding (MoU).
O MoU, como é conhecido, é usado em fases iniciais para regular direitos, obrigações e expectativas dos empreendedores quanto ao futuro do projeto, podendo conter definições, princípios, escopos, licenças de propriedade intelectual e cláusulas societárias, indicando como será formalizada a startup. Seu objetivo principal é pactuar o modo como a startup deverá funcionar, evitando a alocação de recursos em processos burocráticos para constituição de sociedades antes mesmo de eventual MVP (Minimum
Viable Product) ou de surgirem oportunidades de investimentos.

Superada a fase inicial, com maior maturidade do modelo de negócio, é essencial que os empreendedores comecem a refletir sobre o melhor formato jurídico para constituir a startup, que, embora em sua essência tenha aspectos inovadores, ainda deve respeitar os tipos societários que existem no Brasil.

1 Estatísticas disponíveis em https://startupbase.com.br/home/stats.
2 Global Countries Ranking of Startup Ecosystem disponível em https://www.startupblink.com.

Via de regra, no mercado, startups adotam o regime de sociedade limitada ou sociedade anônima, apesar de existirem outros previstos em lei que podem ser escolhidos a depender do porte, quantidade de sócios ou acionistas e complexidade da atividade. A escolha do melhor tipo societário deve ser sempre avaliada de startup para startup, sem equação ou fórmula pronta.

Caso seja escolhida a sociedade limitada, por ter menor complexidade comparada com a sociedade anônima, os empreendedores ainda sim podem inserir no contrato social a regência supletiva pela Lei nº 6.404/1976, passando a estabelecer regras específicas em acordo de sócios, com cláusulas de Stock Options (Put e Call), Drag Along, Tag Along, Lock Up, entre outras, atrativas para investidores que buscam participar do negócio, bem como relevantes para os empreendedores que não querem perder o controle empresarial.

É igualmente importante que os empreendedores reflitam sobre como pretendem expandir a startup, e se precisarão ou não de aportes futuros. Isso porque podem ser pactuados contratos específicos com opções de compra, mútuo conversível e outros mecanismos, operacionalizando de modo seguro a entrada de capital por terceiros e fundos, inclusive estrangeiros, mitigando riscos e tributos.

Além do mais, para proteção do modelo empresarial da startup, evitando a concorrência direita ou indireta desleal, bem como o uso de know-how ou informações sigilosas, os empreendedores podem celebrar no próprio acordo de sócios ou mesmo anteriormente, em fases preliminares, termos de confidencialidade e não concorrência, conhecidos no mercado como NDA (Non-Disclosure Agreement).

Outro mecanismo que pode ser adotado é o contrato de Vesting. Em suma, é natural que outros profissionais com diferentes habilidades dos fundadores de startups, que estejam inseridos no mesmo ecossistema de inovação, sejam atraídos ou convidados a participarem de novos projetos para impulsionar o negócio. Ao invés de serem incorporados como sócios da startup, podem concordar que a participação na sociedade será futura, nos termos do Vesting, evitando alterações e obrigações societárias de imediato.

Assim, com segurança, os empreendedores podem agregar outras pessoas, como desenvolvedores, engenheiros e administradores, observando como a parceria irá se estabelecer com o transcorrer do tempo, ficando acordado que, se forem cumpridos determinados objetivos, metas e prazos, haverá o ingresso na sociedade sob o percentual predefinido.

Ainda, é fundamental que os empreendedores observem se os seus softwares, hardwares ou obras desenvolvidas foram devidamente protegidas por meio de patentes ou registros, na forma da Lei de Propriedade Industrial nº 9.279/1996 ou Lei de Direitos Autorais nº 9.610/1998, evitando que terceiros usem indevidamente suas criações intelectuais. A depender do core business da startup, a proteção intelectual deve ser o primeiro ponto de atenção, já que qualquer infração poderá colocar o modelo em risco.

Finalmente, a startup tem de identificar se em sua atividade haverá o tratamento de dados pessoais, que, segundo a Lei Geral de Proteção de Dados nº 13.709/2018, que entrou em vigor recentemente, em setembro de 2020, deve ser realizado de forma adequada, respeitando os princípios e pautando cada operação em uma das bases elencadas nos artigos 7º ou 11, se sensíveis.

A não observância aos termos da legislação poderá resultar em fiscalizações, sanções e proposituras de demandas judiciais, ainda mais se o modelo for B2C (Business-toConsumer), sem prejuízo de investidores optarem por não alocar mais o capital na startup em razão do risco regulatório, relembrando que, a partir de agosto de 2021, as empresas poderão ser autuadas pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), com advertências, bloqueio de dados pessoais ou multas de até 2% do faturamento, limitadas a 50 milhões de reais.

Eduardo Helaehil

Eduardo Helaehil é advogado, bacharel pela Universidade de Sorocaba (Uniso), pósgraduando em Propriedade Intelectual e Novas Tecnologias pela FGV São Paulo e membro da Comissão de Direito Digital da OAB Subseção de Sorocaba.

A semente da Inovação deve ser plantada

Pode me chamar de indelicado, mas já vou começar este meu artigo propondo um desafio: você sabe me dizer o nome de três jogadores de futebol famosos? Não, nem vou citar um ou outro goleador aqui. É praticamente impossível alguém neste Brasilzão não conhecer pelo menos um nome futebolístico, seja da atualidade ou do passado.

Pode ampliar a minha classificação para chato ou indelicado ao quadrado, mas vou fazer um segundo desafio: você seria capaz de citar três nomes de cientistas brasileiros famosos? Nessa hora, tenho quase certeza que aquele famoso barulhinho de grilo cri – cri – cri está passando pela cabeça da maioria dos leitores que ainda estão por aqui.

Não quero causar desconforto em ninguém, mas apenas mostrar uma realidade tão triste e tão brasileira: sabemos mais de futebol do que das coisas da Ciência, e menos ainda da Ciência tupiniquim. Já ouvimos falar de Charles Darwin, Albert Einstein, Louis Pasteur, Stephen Hawking, mas pouco sabemos sobre César Lattes, Milton Santos, Carlos Chagas, Duilia de Mello ou Marcelo Gleizer, por exemplo.

Não, não se sinta culpado. Isso acontece com você e com centenas de milhares de brasileiros. Basta sair às ruas, pegar um ônibus, ouvir uma rádio, assistir a um telejornal ou mesmo acessar os principais canais de comunicação ou redes sociais na internet. Os assuntos Big Brother, campeonato brasileiro, Champions League dominam as conversas nas ruas.

Antes de continuar e que o pessoal do Esporte me critique, preciso abrir um parênteses e dizer que quando faço esse comparativo entre conteúdo científico e conteúdo esportivo, é apenas ilustrativo. Alguém pode argumentar ‘ah, mas há ciência envolvida no material esportivo’. E eu concordo. A Ciência está presente em muitos assuntos do nosso cotidiano.

Há ciência no conteúdo esportivo sim, nas táticas dos times, nas reportagens de saúde dos atletas, nas tecnologias implantadas para verificar o desempenho dos jogadores em campo ou até mesmo no VAR (Video Assistant Refereea), tecnologia que tem sido usada para apoiar as decisões dos árbitros e que tem causado tantas alegrias e tristezas. Então concordamos neste ponto: há conteúdo científico no material jornalístico, mas acredito que ainda é muito pouco e poderia ser bem maior, caso o público cobrasse esse tipo de informação mais apurada.

Uma pesquisa que fiz em 2009 e 2010 em 15 jornais do interior do Estado de São Paulo mostrou que apenas duas matérias apresentavam conteúdo científico dentre as 1673 reportagens esportivas publicadas por esses 15 jornais. Como disse, é pouco. A Ciência poderia estar bem mais presente em nosso dia a dia.

Isso mostra que temos uma Cultura que não contempla a Ciência. Grosso modo, a Cultura de um povo é aquilo que determinada sociedade tem como hábito. Passa pela culinária, pela língua, pela apreciação artística, literária. E nossa Cultura apresenta pouco espaço para aprendermos sobre Ciência, Tecnologia e Inovação porque sempre foi assim. E se nada for feito, nada vai mudar.

Importante termos consciência do atual cenário e termos a certeza de que podemos mudar. E isso é algo muito difícil, afinal, não se muda uma Cultura da noite para o dia. Pelo contrário, leva tempo, investimento e perseverança.

A literatura nos mostra que não há um grupo de tópicos a serem seguidos para mudar uma Cultura de todo um País que nos dê a certeza de que tudo vai dar certo. Há coisas que deram certo em um lugar e errado em outro. E vice-versa. Mas o que há de comum nas experiências exitosas é que houve investimento na Educação.

E a Universidade de Sorocaba tem contribuído para plantar essa semente da Educação e mudar a Cultura de nosso povo, melhorando o conhecimento e a informação consumida pelos brasileiros.

Em toda sua história, a Uniso sempre foi referência na formação das pessoas (foram mais de 50 mil até o final de 2020) e, de uns anos para cá, a Universidade tem levado o conhecimento científico à população por meio do jornal tabloide Uniso Ciência e pela revista Science @Uniso, tirando a produção científica das prateleiras acadêmicas e levando o conhecimento para dentro dos lares.

É preciso plantar e a Universidade de Sorocaba já está semeando há tempos. Agora dá mais um passo, criando o Uniso Tech, um ambiente que pretende abrigar conhecimento e dar suporte às boas práticas e iniciativas. De ser ponte entre a teoria e a prática, fazer se encontrarem as pessoas que têm ideias complementares, mas não se enxergam no dia a dia e colocando seu pessoal e seus laboratórios para serem usados em busca de inovações.

Pois de uma Nação que não tem o hábito de pensar, praticar e consumir Inovação não dá para cobrar práticas inovadoras. Como vimos, não dá pra cobrar conhecimento das coisas das Ciências de uma sociedade que não tem o hábito de ler, ouvir, assistir ou receber informação sobre esse assunto.

Um resultado exitoso disso tudo pode não chegar tão rápido, mas certamente virá e, quando chegar, a universidade comunitária da região de Sorocaba, a Uniso, poderá se orgulhar de ter semeado a Cultura Científica e Cultura da Inovação e participado de todo esse processo de mudança e melhoria de toda sua comunidade.

Marcel Stefano

INOVAÇÃO E SAÚDE

Entre os anos de 1914 e 1918, durante a primeira Guerra Mundial, um jovem médico trabalhava no front de batalha como cirurgião do exército Inglês. Seu nome era Alexander Fleming. Sua grande frustração durante a guerra era não poder curar as infecções provocadas nos soldados; ele apenas lavava as feridas com ácido carbólico sem nenhum resultado. Ele costumava dizer que na Primeira Guerra Mundial as feridas ceifaram mais do que as balas.

Ao fim da guerra, inconformado com o que vira e sem nenhuma opção de tratamento, decidiu buscar uma nova terapia para essas infecções. De volta ao seu laboratório, no St. Mary Hospital em Londres, passa a dedicar sua vida em busca de um novo tratamento. Em 1928, dez anos após o final da guerra, por descuido e por acaso, uma de suas placas de Petri contendo bactérias contamina-se com um fungo. Ele nota que ao redor do fungo nenhuma bactéria cresceu e, então, cogita que o fungo poderia produzir alguma substância que inibisse o crescimento ou mesmo que matasse a bactéria. Ele, então, isola o fungo e identifica-o como Penicillium notatum. Estava descoberta a penicilina, inaugurando a era dos antibióticos e revolucionando a história da medicina, tornando-se certamente o grupo de fármacos que mais vidas salvou durante toda a história da humanidade.

Movido pela necessidade de encontrar uma solução para o seu problema, incentivado pela curiosidade natural dos homens e mulheres cientistas, Fleming dedicou-se até encontrar o que buscava.

De forma muito semelhante, o brasileiro Gabriel Liguori, acometido, aos 2 anos de idade, por uma má formação cardíaca, passou boa parte de sua infância entre hospitais e cirurgias.

Inconformado, assim como Alexander Fleming, Gabriel estudou medicina da USP em São Paulo, especializou-se em cardiologia e então fundou a TissueLabs, startup que desenvolveu tecnologia para impressão de órgãos e tecidos em impressoras 3D. Ainda longe de chegar à perfeição, mas no caminho certo, Gabriel foi escolhido pelo Instituto de Tecnologia de
Massachusetts (MIT) como um dos inovadores até 35 anos mais promissores no mundo todo. Nessa mesma escolha do MIT já estiveram presentes Mark Zuckerberg (Facebook) e Larry Page (Google).

Histórias de dificuldades e propostas de superação, assim surgem inovações na área da saúde. Olhe o problema sob uma ótica diferente, não o trate como uma barreira instransponível, mas enxergue no problema um desafio e proponha algo que até então poderia parecer pouco convencional. As inovações são uma mistura de oportunidade, criatividade e trabalho. Foque
nesses três componentes e dedique-se a fazer diferente. Encontre a oportunidade na necessidade, use criatividade inovando e trabalhe dedicando-se ao seu projeto.

Faça. Faça de novo. Faça o novo.

Fernando de Sá Del Fiol

QUERO COMEÇAR MINHA STARTUP. E AGORA?

Uma startup é um modelo de negócio inovador, ágil, de alto risco e que pode necessitar altas quantias de investimento. O fator sobre disponibilidades financeiras para investimento no início das atividades, na maioria dos casos, é muito escasso e caracteriza-se como um primeiro desafio ao empreendedor: trabalhar na alocação de poucos recursos sobre a estrutura enxuta da empresa.

Os primeiros passos devem ser realizados de forma cuidadosa e com tomadas de decisões rápidas, o empreendedor deverá dividir sua atenção na formação de uma estrutura dinâmica, flexível e não burocrática.

Antes de tudo deve-se ter identificado qual o problema que se pretende resolver ou benefício que irá oferecer para alguém, ou seja, como gerar valor para o cliente. Outra característica em sua estrutura é identificar qual tipo de inovação tecnológica poderá ser atribuída à sua solução e operação, dessa maneira se trabalhará com eficiência. Em seguida, buscar pela escalabilidade, ou seja, ter potencial de crescimento sem elevar custos em mesma proporção.

O início é marcado por começar de forma pequena, ser rápido das decisões e execuções, validar com o cliente o problema identificado, estar aberto a receber críticas e pensar grande.

Há vários autores e empreendedores que oferecem suas contribuições sobre as fases de desenvolvimento de uma startup, sendo difícil encontrar um consenso sobre isso, mas podemos considerar que, basicamente, conforme apresentado por Eric Ries em “A Startup Enxuta”, há o ciclo de construir – medir – aprender.

De maneira breve, na fase de construir, o empreendedor é o responsável em transformar ideias em produtos, sendo essa a primeira fonte de inspiração que norteia a resolução do problema de alguém gerando valor. Em seguida, com a fase de medir, deve-se dar atenção essencial sobre a reação dos clientes, este momento é conhecido como um ciclo de validação pelo cliente e será um importante termômetro se a startup está gerando valor para alguém.

Por fim, há o processo de aprendizado que indicará o avanço com o desenvolvimento da empresa ou a necessidade de mudanças estratégicas; esse alinhamento de rota no desenvolvimento é conhecido como pivotar a startup.

Existem instituições, programas e pessoas aos quais o empreendedor deverá se conectar para recorrer a conhecimentos, informações, mentorias e direcionamentos. No começo é necessário estar aberto a sugestões e próximo de pessoas que somem ao propósito maior que a startup possui, que é agregar valor para o mercado e às pessoas.

Henrique Rafael da Silva Romão

Faça uma busca

Categorias

Newsletter